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"Diabetes Viver em Equilíbrio" № 55: Recentemente desafiaram-me para falar dos filmes da minha vida. Não
pude resistir ao convite para uma viagem muito especial ao fundo da
memória, que foi também uma oportunidade para descobrir alguns segredos
por detrás de alguns dos títulos mais famosos ou míticos da história
do cinema. Perguntar-me-ão, afinal o que é que isto pode ter a ver com a Diabetes?
Como que é que um assunto aparentemente tão superficial ou lúdico
pode inspirar um Editorial numa Revista como esta? Na realidade, para um cinéfilo como eu, estas decisões foram dolorosas,
custaram muito. No devido contexto, claro. Noutra dimensão, falando
de coisas muito mais sérias e importantes, porque se trata da saúde
e bem-estar, também os diabéticos têm que fazer opções de fundo. Decidir
pôr de lado alguns prazeres excessivos de vida, para escolher um estilo
de vida mais saudável. No fundo criar prioridades. Prevenir para evitar
danos irreversíveis a médio prazo.
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Iniciativas |
Iniciativas
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| Colunista: Cristina Duarte -Fisiatra |
| Revista: 35 |
| Tema: Seminário "Educação do doente crónico" |
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Seminário "Educação do doente crónico"
SESIMBRA NOVAMENTE
O ano não tem sido particularmente fácil. A reforma da colega muito próxima, a partida rumo a um Hospital Algarvio, da outra recém formada, mas de qualidades quase únicas, inundam-me de trabalho. Vou soçobrando ao peso das catadupas de pedidos de consultas, problemas e casos clínicos complicados. Nos momentos de maior lucidez, socorro-me do aprendido nos seminários passados, em especial questões como o «burnout » e similares, noutros enfureço-me tão simplesmente, com o meu companheiro, para manter ainda o controle, com a desorganização dos serviços e tudo a fugir, inevitavelmente, à nossa vontade.
Quando me falaram no novo seminário, confesso, não vi necessidade na participação.
Ao longo de vários anos, em paralelo com o apoio à deficiência no Hospital e depois duma extensa formação (como é hábito na medicina) em reabilitação, especialmente a pediátrica, fui aprendendo, com a psiquiatria, a abordagem familiar, Para mim, tornou-se fulcral conhecer o todo familiar, para ajudar a parte: o doente. Participara algumas vezes, no encontro, com temas relacionados com a importância da família, na doença crónica. Repetir o tema, quando não me parecera particularmente capaz de influenciar, mudanças de comportamentos, nos colegas amigos mais próximos, cujas práticas clínicas conhecia de perto, não era particularmente entusiasmante.
Fui convocada por telefone e incapaz de recusar. Ainda interiorizei desculpas esfarrapadas, a apresentar na reunião em breve.
Entrei na sala daquele dia, já alguns meses passados, ainda de preparação do seminário a realizar e cruzei o olhar com o Carlos Gois, então presente. Com as cadeiras em redor e os participantes ainda em silêncio, veio-me, em flash, o ultimo encontro de há um ou dois anos e a sessão «do luto», precisamente orientada pelo psiquiatra, ali presente. Recordei, em segundos, o tema no seu todo e como me ajudara, a atender as frustrações do dia a dia, com os doentes difíceis e os casos sem cura, tão frequentes na minha consulta.
Depois foi vindo, por revoadas, um entusiasmo crescendo, devagarinho.
O Rui dera-me a ler uns textos de marketing; folheara apressadamente as folhas, perplexa com o assunto: marketing, mas para quê? Não me soube responder com convicção e atrapalhou-se em explicações, envolvendo a Enfª Isabel e a sua ligação à gestão. Já com tantos obstáculos no meu quotidiano, sem espaço para outros envolvimentos paralelos, foi absolutamente por dever, a escuta atenta das questões levantadas, pois pressentia-o verdadeiramente preocupado.
Atravessámos a ponte com o dia ainda luminoso. A estrada surgia a direito, sem trânsito em demasia. O dia ameno e a vizinhança dos próximos dias sempre agradáveis, aclaravam a mente.
Fui revendo mentalmente o meu tema, encontrei-o seguro bem organizado; com o Francisco e a Sofia, preparara mais um sobre a família.
Lentamente relaxei, no banco do automóvel, onde dormitei por momentos. Mais tarde, já no Hotel, esbocei os primeiros sorrisos sinceros, e cumprimentei com interesse verdadeiro, amigos e colegas.
O começo, noite dentro, pretende facilitar a comunicação entre todos. Foi, como é hábito, na sala maior de reuniões, depois do jantar. O Boavida adiantou-se ligou o rádio e a música foi pairando. Não era novidade, sessões musicais, como forma de expressão, fiquei atenta ao desenrolar.
Quando nos pediram, a escolha dum produto para comprar, senti-me a perder tempo, por hora tão precioso. Esperava uns momentos de magia, arrebatadores, para varrer de vez as tormentas do dia a dia e permitir sintonia emocional com os participantes, sinceramente não a senti. O Raposo fez a apresentação dos objectivos, com clareza total, mas em nada me parecia diferir dos milhares de colóquios e encontros assistidos ao longo destes vinte anos; e, caramba, em Sesimbra a coisa era usualmente mais emocional, pensei para mim própria, com um misto de pena e desilusão interior.
Quando um professor de camisa de fora e ar gingão se levantou, pediu um quadro de folhas de papel pardo, agarrou na caneta e desatou a palestrar sobre os pontos principais do marketing, atravessei a sala com o olhar e enfrentei o do Rui: sem palavras partilhámos a preocupação comum: «Mas marketing na doença crónica? Para quê ?»
O tema particular do encontro deste ano, centrava-se nas «Ajudas para a decisão». Ao longo da manhã de sexta, foram decorrendo, no formato próprio do encontro, em Workshops, muito interactivos, as influências várias na decisão do doente, em tratar ou não, a sua doença crónica ; após a introdução do Boavida., bem feita, ao tema , e à sua pertinência no momento actual, (donde retenho invariavelmente os 30% de doentes a não cumprir as medicações e indicações de técnicos de saúde), foram surgindo os vários factores, numa coerência organizativa, a traduzir um fio condutor, nem sempre presente em seminários passados.
Trechos de música clássica, precederam as sessões, acompanhadas do texto explicativo do autor e sua obra; ouvi-os atentamente e com emoção, (a primeira sentida até então) particularmente o escrito por Shostakovich em Leninegrado debaixo de cerco, como explicou sentidamente o Francisco, pouco depois da sua audição.
As técnicas do marketing, na venda de produtos, foram entrando lentamente; primeiro retive as mensagens de ganho e perda; vislumbrei os modelos esbeltos de cabelos sedosos nos anúncios em
champôs e cremes corporais. Perceber a influencia do tipo de mensagem na tomada das decisões em saúde, foi a missão dos envolvidos. De facto, temas de titulo hermético, como viés de omissão, calculo de probabilidade e outros similares, foram ganhando forma e sentido, com o decorrer dos temas abordados, em exemplos práticos vindos do marketing e aplicados directamente à saúde.
O meu processo de mudança começou antes da sessão final, já depois da fantástica cena filmada pela Cristina, Sónia e Rosa, tendo o Enf. Rui como doente, brilhante no papel, em simultâneo de desiludido e surpreso pela sequência de desajustes em série numa consulta, pensava ele, multidisciplinar e articulada.
Demorei algum tempo mas surgiu de rompante. A minha Mãe mais a sua artrose da anca e a natação. Não falta inteligência para digerir a informação e esta cumpre os preceitos tidos como correctos, ao ser transmitida. Sem indicação cirúrgica, e ainda com pouca dor, os exercícios em meio aquático pretendem manter a força e mobilidade articular. A lógica é evidente e a minha Mãe cumpridora, em assuntos de saúde, desde sempre. Esperei a prática desportiva a decorrer sem qualquer dificuldade.. Quando a insistência foi progressiva em abandonar a piscina, afiançando repetidamente não ver benefícios, estranhei, verdadeiramente. Repeti, no meu papel de informadora do desenrolar do conhecimento médico : «Não é para melhorar, mas para ter mobilidade e força, se for operada. É natural não tirar a pequena dor já manifesta , ainda só ocasionalmente» E continuei, muito
cientificamente :« Não é para ficar melhor, Mãe». Depois de repetir o discurso, a minha Mãe fica calada e a conversa deriva noutros rumos. Recebi a informação, há alguns dias, lacónica: «Deixei de ir à piscina. Estrago o cabelo e não me faz nada»
Ali com o azul do mar, e o sol resplandecente lá longe na praia, junto à janela, onde me sentara a ouvir a Matilde e colega, senti o horror da minha informação, repetida ao pormenor à minha Mãe. Anuncio a desgraça sempre e quero cumprimento com rigor do estipulado! Transmito permanentes mensagens de perda e quero adesão a conselhos e indicações terapêuticas!!!!
Quando durante uma hora palestrou o professor vindo do marketing, fui revendo a mente dos pais na minha consulta e visionando os meus erros crassos, cometidos ao longo de anos. Os doentes escolhem tratar ou não, a sua doença crónica, com a mesma lógica aplicada à compra dum produto de uso diário, onde somos sujeitos a influências variadas, desde pessoais, à família e do meio. A palestra foi brilhante, fazendo o paralelo com a saúde, sempre.
Terminámos com o exemplo prático, depois de discutido em pequenos grupos; o meu orientado, pela Alda e a Arminda, explanou o pretendido de forma clara. Foi pouco depois a minha síntese interior do aprendido: tomamos decisões considerando factores externos e internos e em cada um deles prós e contras, tão simplesmente, quer se trate de comprar um casaco, deixar de fumar, tomar comprimidos ou cumprir dietas!!!
Foi precisamente dois meses depois do último dia, em Sesimbra, a noticia devastadora. Não soubera da doença, do internamento, de nada. Conhecia os pais, por ligações profissionais há 20 anos. Fui-me informar do rumor de doença na filha, adolescente. Sem os pais presentes, recebi-a por terceiros, assim, duma vez só. «Sim está doente e internada há três meses e foi amputada, todos os dedos das mãos, e ambas as pernas. Mentalmente está perfeita.» Habituada a notícias trágicas, não esperei a reacção de seguida. Senti as pernas vacilar e sentei-me desavergonhadamente. Reuni forças para inquirir o sucedido. Fui-me preparando para falar aos pais. Quando me cruzei com o pai, dias depois, articulei num sussurro. «Se precisar sabe onde estou» Foi pouco depois o bater suave no gabinete. Disponibilizei-me de seguida. Ouvi o relato do ocorrido e os vãos esforços de salvar os membros. Sesimbra e o marketing vieram de súbito, com aplicabilidade prática. Visualizei os pontos fracos e fortes, internos e externos da jovem, conhecida dias depois. Procurei mensagens de ganho, sempre num discurso optimista, traduzidos em resultados imediatos. E prossegui dias fora, desde então, quando me procuram. Foi numa tarde de calor o encontro com a irmã, minha conhecida em encontros ocasionais. Interroguei-a, delicadamente, pela reacção familiar à gravidade da doença na irmã, com sequelas de dimensão imensa. Foi descrevendo, em pormenor, o apoio de todo o hospital, quando chegou à família, articulou em voz clara :« Estamos aqui para a ajudar. Ela vai ultrapassar e aceitar, como já vi tantas outras pessoas a fazê-lo. E ter-nos-à, a nós, sempre ao lado ».
O Rui anunciou recentemente, incluir um inquérito familiar na história clinica habitual e o Boavida pediu ajuda para um jovem, onde pressentia um problema familiar.
Obrigada pelo convite
Parabéns, sinceros!
Carcavelos, 14 Julho 2005 Cristina Duarte
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