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Propriedades do chocolate: conheça os benefícios para a saúde

A origem do cacau remonta a 1.500 A.C. (antes de Cristo). A civilização Olmeca, originária da América do Sul, foi a primeira a aproveitar o fruto do cacaueiro ("Theobroma cacau"; theobroma significa, em grego, alimento dos deuses). Era ingerida pelos sacerdotes em rituais religiosos. Foi também utilizada como moeda corrente. Cristovão Colombo trouxe as sementes para a Europa em 1502. A elite espanhola começou a adicionar-lhe açúcar, tornando-o menos amargo e com propriedades organolépticas mais agradáveis. O chocolate quente começava a tornar-se a bebida das elites e nos 150 anos seguintes foi difundido por toda a Europa. Em 1795 os ingleses começaram o fabrico do chocolate em larga escala.

O cacau, substância da qual se produz o chocolate é naturalmente amargo, sendo por isso, confecionado adicionando-lhe açúcar e outros ingredientes tal como leite e frutos secos. Para ser considerado chocolate, segundo normas europeias, deverá conter no mínimo 25% de cacau, contendo o chocolate negro um mínimo de 70%.

O chocolate é ingerido tanto em situações de tristeza, como forma de melhorar o humor, como em situações de felicidade como forma de comemoração. A compulsão por chocolate é causada em grande parte por factores psicológicos: baixa auto-estima, ansiedade, stress, perdas várias, excesso de trabalho…

Mas afinal será o chocolate prejudicial ou benéfico para a saúde? Que efeitos terá sobre o nosso estado psicológico?

O chocolate é constituído por mais de 300 substâncias químicas, que induzem a libertação de vários neurotransmissores (moleculas responsáveis pela transmissão de sinais entre os neurónios). Entre os neurotransmissores destacam-se as endorfinas, hormonas que reduzem o stress, diminuem a dor e induzem satisfação, a serotonina com efeitos anti-depressivos (cuja libertação é induzida pelo triptofano, um aminoácido essencial). A feniletilamina, conhecida como a “anfetamina do chocolate”, leva a alterações no nível da pressão arterial e glicose, induzindo sensação de excitação e aumento do nível de alerta.

O chocolate também contém anandamida, substância com acção semelhante a um dos constituintes da marijuana, que induz a libertação de dopamina, neurotransmissor responsável pela sensação de bem estar (vários antidepressivos comercializados atualmente atuam aumentando os níveis de dopamina no cérebro). Contudo é necessária a ingestão de cerca de 12,5 quilogramas de chocolate para induzir a sensação causada pela marijuana.

Outra substância encontrada no chocolate é a teobromina, que induz relaxamento físico e intelectual, funcionando como um estimulante idêntico à cafeína. Pode contudo provocar dores de cabeça. O chocolate contém também cafeína, mas em quantidades muito pequenas. Em 30 gramas de chocolate encontra-se uma quantidade de cafeína correspondente a uma chávena de café descafeinado.

Induzindo tantas alterações no estado de humor dos seus consumidores, será o chocolate uma substância aditiva (que provoca dependência)? A resposta não é consensual no meio científico, mas a maioria dos investigadores pensa que não será. Alguns dizem que a sua ação não passará de um efeito placebo. Contudo vários estudos demonstraram que uma das substâncias constituintes do cacau, os flavonoides (polifenóis) desempenham um papel relevante na redução da pressão arterial e do risco cardio-vascular. Um artigo de revisão demonstrou que o consumo de 100 gramas por dia de cacau diminuía a pressão arterial máxima em cerca de 4,7 milímetros de mercúrio (mmHg) e a mínima em 2,8 mmHG. Foi demonstrado que o efeito de redução da pressão arterial do cacau não pode ser menosprezada, dado que a amplitude de redução da tensão é comparável à atingida com a monoterapia com alguns medicamentos. Os flavonoides causam vasodilatação arterial (aumento do calibre das artérias) aumentando a produção de óxido nitríco (substância vasodilatadora) pelo endotélio, a camada mais interna das artérias. Uma constatação interessante é a de que o chá, apesar de também conter flavonoides não demonstrou redução da pressão arterial. Isto poder-se-á dever à diferença do tipo do tipo de flavonoides (chá: epicatequinas e catequinas; cacau: essencialmente procianidinas).

Alguns estudos demonstraram efeito benéfico da ingestão de cacau na sintomatologia inerente à fibromialgia (doença crónica a nível muscular) e redução dos níveis de stress (com a ingestão de cerca de 45 gramas de chocolate preto por dia).

O Imperial College de Londres conduziu um estudo que demonstrou a eficácia da teobromina (constituinte do cacau) na reduçao da tosse persistente, tendo sido evidenciado um efeito 3 vezes superior à codeína (fármaco utilizado no tratamento da tosse). Pensa-se que este efeito advém da sua acção supressiva ao nível do nervo vago.

Vários estudos têm demonstrado um efeito benéfico da ingestão de cacau na redução e oxidação do colesterol LDL (“mau colesterol”) e aumento do colesterol HDL (“bom colesterol”).

Uma barra de chocolate de leite clássica contém apenas cerca de 30% de cacau, os restantes 70% são açúcar, manteiga de cacau, leite, soro lácteo, emulsionante e aromas. Ao ingeri-la a pessoa está a fazer um aporte muito baixo de cacau mas elevado de hidratos de carbono e gorduras, o que não é benéfico. O Chocolate preto (que contém mais de 70% de cacau) poderá ser uma alternativa nutricionalmente mais interessante dado que contém elevada percentagem de cacau e baixa de hidratos de carbono e gordura.  O processo de aquecimento do chocolate também poderá alterar as propriedades benéficas do cacau. Assim quando nos apetecer ingerir chocolate devemos previligiar o chocolate preto com um nível de cacau muito elevado, ou cacau simples.

9 em cada 10 pessoas gostam de chocolate, metade desses tem compulsão pela sua ingestão. Em todo o mundo 1 bilião de pessoas comeu chocolate ontem e outro bilião irá comer chocolate amanhã. Embora nos tenha sido transmitida a ideia de que o chocolate faz mal, a ingestão de cacau em quantidades moderadas poderá ter benefícios para saúde.

Bruno Alexandre Paulo Santos Almeida

Departamento de Diabetologia Adultos

Departamento de Diabetologia Crianças/ Jovens 

Graus académicos:

- Aluno Doutoramento em Medicina (FCS/UBI)
- Mestre em Nutrição Clínica (Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra) – 2011
- Licenciatura em Medicina (Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra) - 2005

Carreira e funções profissionais:
- Especialista em Medicina Interna
- Assistente Convidado de Fisiologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (desde 2012)
- Membro da equipa de Urgência Interna do Hospital da Luz (desde 2012)
- Membro do Jurí nacional de Medicina Interna - Artº 92º do Estatuto da Ordem dos Médicos (desde 2013)
- Internista no Hospital Beatriz Ângelo (2012-2013)
- Membro do Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos (2010-2013)

Investigação:
- Investigador nas áreas de Diabetes e Obesidade (Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior)

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